IBITIPOCA OFF ROAD 2014 – A SAGA DE UM IRRESPONSÁVEL

Viano Malta e Túlio Malta, pai e filho, participaram do IOR 2014. Viano na Over 50 e Túlio na Sênior

Viano Malta e Túlio Malta, pai e filho, participaram do IOR 2014. Viano na Over 55 e Túlio na Sênior

O Ibitipoca Off Road é uma das melhores e mais charmosas provas de enduro do Brasil. Além de ser uma prova que todos sonham em fazer, ela proporciona momentos incríveis. Como a participação de pai e filho, que disputaram a competição, em categorias diferentes – e com histórias, metas e resultados diferentes também.

Confira como foi a experiência do piloto Viano Malta na edição especial de 25 anos do Ibitipoca Off Road. Viano, da cidade de Lagoa da Prata, é pai do também piloto Túlio Malta, atual líder do campeonato Brasileiro e vice-campeão do Ibitipoca 2014 na categoria Sênior.

“Faço o relato, não por achar que é bonito. Simplesmente por que foi assim que ocorreu.

Viano 1Resolvi voltar a andar de moto (trilha) há uns 06 meses, em virtude do problema que adquiri no fêmur (tratável, só depende de coragem de iniciá-lo). Lá no início da década de 90 participei de, no máximo, uns cinco enduros e achei que dava tranquilamente para encarar o Ibitipoca Off Road. Afinal, nada tão difícil: só o mais badalado da América do Sul, 165 kms no primeiro dia e 180 no segundo, 06 e 07 horas de prova respectivamente, 400 motos e um tanto de carro. Terreno? Subidas pro céu, descidas pro inferno, areia que nem o Saara, uns 50 córregos! Pensei: vou pegar pódio!

Colocando a moto no ônibus: a aventura já começa aí

Colocando a moto no ônibus, a aventura já começa: tem que acelerar, abaixar a cabeça e rezar pra dar tudo certo!

Antes entretanto, na preparação, fui avisado que as motos seriam “encarretadas” no Buzú (aquele da X-11) na quinta-feira à noite, num galpão ali na Rua Sergipe. Cheguei e a turma (Charles Pio, Dinho Maciel, Marcinho Piriá, Leandro, Adilson, Erlinho) encostava a barata na parede e subia uma rampa de uns 3 metros, literalmente caindo lá dentro do ônibus, tirando uma “fina no toá” numa alavanca de ferro. Tô na merda, articulei. Encostei a moto mais ou menos no jeito, despistei que alguém tava me chamando no celular e sai de fininho pra rua. Como estavam com pressa, o Dinho mandou a bichinha na grota. Ufa!

Zarpamos na sexta e a galera só na prosa. “Se tiver o Romaniacs o bicho vai pegá”. “Viano, o negócio é o seguinte, cê cola na traseira de um e senta a mão, senão passam em cima docê”. “Fica tranquilo, é muito organizado. Se ocê perder mandam um helicóptero te achar, já que você larga com 2 GPS”. E eu ainda acreditando no pódio: tão exagerando, tiro de letra!

Chegamos às 17 horas no local e senti a dimensão do programa. Umas 100 vans, motos urrando pra tudo quanto é lado, Troller´s cada qual mais chique. Peguei meu material e dei uma olhada na quantidade de inscritos na Over 55, minha turma. Eram 07, cinco entre 55 e 60 anos e dois com mais de 60. Confirmei: pego um troféu e no sábado que vem vou lá no Pernaiada tirá onda com a turma de bike.

Marcaram uma tal da aferição, triagem, sei lá o quê, e o Piriá, chefe da X-11, resolveu que iríamos às 20 horas. Como fui pro Hotel e num tinha nada pra fazer resolvi ir na frente e matar a tarefa. Afinal, tava lôco prá tomá um Rum. Tarefa cumprida, hora do “oi tapado”. Cravei uns 10 e fiquei proseando até ali pelas 3 hs com o Divininho, meu ídolo. Este, a propósito, desacostumado com o velho Montilla.

A partir das 6 hs o Hotel quase caiu. Os caras não respeitam nada. É fedaputa pra cá, disgraçado prá lá, bota fechando, capacete caindo, cadê meu óleo, cadê minha planilha, sei lá que mais. Tapei a cabeça e esperei o tufão passá, berçando até às 8 hs, já que largava mais tarde. Levantei e fui colocar a farda. Junta daqui, junta dali, vi que num tinha levado meia (meião) pra calçar a bota e a joelheira. Tinha um retardatário num quarto próximo que me emprestou uma do Flamengo, com uns 8 furo. A joelheira que eu tinha levado (e adquirido lá em BH) o Túlio colocou e deixou uma, com o maior respeito, que mais parecia uma prótese: dura que nem um cimento. E lá vou eu que nem o Robocop pra largada.

Como eu não sabia muito bem do horário, cheguei e fui pedindo licença e a turma me olhando de banda. Informei com um participante mais simpático e ele falou que faltava 1h20 ainda. Encostei a 230 por ali e resolvi sair pra comprar um Gatorade, que talvez pudesse ser necessário.

Aguardando a hora da largada  - Foto Lu TCMG

Aguardando a hora da largada – Foto Lu TCMG

No trajeto até o Posto de Gasolina próximo fui observando as motos. TODAS, com pneu com cada gomo maior do que os de uma mexerica pocã e o meu, parecendo casca de maçã. Comprei o isotônico e fui colocar na pochete, numa bolsinha do lado. Acondicionei bem e dei dois passos: pafe!! O bichinho sai rolando no pátio do posto, uma vez que a “capanga” da pochete tava podre, tinha fundo não. Nada que não houvesse solução. Pedi a um transeunte que apanhasse a garrafinha, já que não dava pra agachar devido aos joelhos encimentados e peguei um elástico que tava sobrando de alguma peça da minha roupa e amarrei a goela dela.

Voltei e ainda faltava uns 40 minutos. Joguei o corpinho numa grama por ali e cochilei uns minutos, tendo a mesma alma boa que me informara antes o horário, me dado um bicudinho dizendo: vai lá campeão, tá na hora! Agradeci e ainda ouvi ele comentar com alguém: uai, o 205 tá sem o equipamento de navegação. É o único!

Subi no local de largada e foi sintomático: a goela do Gatorade afinou e ele saiu rolando na rampa. Fingi que não vi e vazei na braquiara. No Posto logo na frente parei para despistar que tava zerando o Totem (chama assim mesmo?) e na hora que o 206 passou, finquei atrais.

Viano 2Meus caros amigos, vocês sabem a origem da expressão “ver a Vó pela grêta”. Não? Viano Malta no Ibitipoca 2014! A partir daquele instante eram duas opções: matar ou morrer! E, modéstia à parte, o véizinho aqui é coro grosso. Senão, tava na primeira página do Estado de Minas: ADVOGADO PERDIDO NA REGIÃO DE JUIZ DE FORA.

Nos primeiros 20 kms tava soltinho, até falei pruns dois: abre, abre! Na hora que começou a valer mesmo, uma constatação: os véizinhos eram todos foda! De navegação e de subacança. Ai, ora eu carrapateava o 204, ora o 206, de vez em quando o 211 (da categoria Junior) e lá vou eu. Com uns 50 kms minha língua tava grudada no céu da boca. Parava nos neutros e eu olhava de banda e os caras dando cada gorfada no Camelbak que me matava.

Um dos vários trechos de areia - Foto Lauro Time to Ride

Um dos vários trechos de areia – Foto Lauro Time to Ride

Lá pelo km 70 paramos num tal Bar do Zé. Informei e me falaram que eram 10 minutos. Reabasteci a barata com duas pet´s de gasolina e mandei um Gatorade de limão nos peito. Na hora que ia pedir mais um pra usar mais na frente olhei e vi o 204 passando que nem uma bala. Fervi em cima dele!

Lá pelo km 100, nova parada em Lima Duarte, esta de 20 minutos. Cheguei numa pinta danada. Pensei: quê isso, tá bão dimais! Bebi água a vontade, comi um pastel e confabulei mais uma vez: hoje fico entre os 3, amanhã administro e vou pra galera! Afinal, apesar de tudo, carrapatiei bem e sabia que não tinha perdido nenhum PC. Hum, era dali pra frente que o Ibitipoca ia mostrar a cara.

Viano 3Caímos na trilha e dai a uns 20 kms, de repente uma subida, fudida. Quando menos imaginei eu tava no meio de umas 20 motos. Pus a faca nos dentes e sentei a mão. Uns 5/6 kms só de solavanco. Todas as minhas pedras do rim aloiram e o problema no fêmur direito passou pro esquerdo. Chegamos no tôpo e o 207 vira prá mim e fala: “é isso aí campeão. Segura que agora tá começando a brincadeira. Ai prá frente tem o Caracol”. Viajei: sábado a tarde, Bar do Levi, chopp trincando!

O tal do Caracol tem umas 800 pedras, cada cepa, milimetricamente colocadas numa descida de uns 3 kms, claro, em zigue-zague. Cê acha que um freizinho à tambor duma 230 funciona numa situação destas? Esquece! Tranquei os joelhos no tanque, torci pro freio de mão dá uma ajuda e garrei com Deus!

Foto Lauro Time to Ride

Foto Lauro Time to Ride

Vencido o Caracol, apresentou-se outro, só que subindo. Se não tinha pedras, tinha uns 28 cotovelos. Na hora que cheguei lá em cima, passei a língua nos beiços e senti que no meio dos rachados só tinha sal. Tinha uma parada de uns 2 minutos e um véizinho simpático veio pedir uma ajudazinha pelo fato das motos estarem passando na sua propriedade. Ranquei R$ 2,00 e consegui balbuciar: trais um golinho d´água! Apesar de simpático, o véizinho não podia sair do posto e perder os trocados. Compreendi e vazei novamente, não sem antes ajeitar os óculos que toda hora descia e tapava metade da visão!

Ai não teve jeito. O espírito competitivo sucumbiu ao pedido do corpinho. Parei no primeiro córgo daí pra frente e bebi um golinhos d´água. Ou melhor, tentei. Como não conseguia abrir o capacete, enchia a mão (enluvada) e mandava o que dava pra dentro capacete. O que me permitiu chegar ao destino, não sem antes encarar mais umas 5 subidas, 10 descidas e um areal lascado.

Chegada na vila de  Conceição de Ibitipoca - Foto Lu TCMG

Chegada na vila de Conceição de Ibitipoca – Foto Lu TCMG

Apesar de morto, cheguei em Ibitipoca 2 minutos atrás de todos meus concorrentes. No local indicado, tinha um barril com água no copinho à disposição dos pilotos e mandei 5 nos peito! O Sandro Hoffmam tava por ali e ainda comentou: hem! Peguei uma fila, entreguei os GPS e me entregaram a “fitinha” dos PC´s e o cara da organização falou: pegue aqui até as 20:30h os GPS para amanhã! Pensei: marca minha cara companheiro que ocê num vai vê ela tão cedo. E a fitinha? Não olhei e levei pro Túlio, não sem antes advertí-lo: sou apeladô, aceito gozação não! Na Pousada fui tirar a farda pro banho e urrei pra tirar a bota! No almoço/janta pedi um PF e urrei pra cortar o bife.

Resumo da Ópera: não perdi nenhum PC, não cai, não arroei ninguém, fui o ultimo na categoria (até que fui o sexto, mas acho que o sétimo desistiu), dormi no sábado não mais do que às 21 horas, acordei no domingo como se tivesse lutado com o Minotauro e apesar da conhecida ofância conclui que não seria prudente pegar, via trilha, os 180 km de volta e…valeu a pena!

Da próxima, e haverá outras, em termos de organização farei tudo ao contrário. Ou não! Apesar de não achar bonito, sou assim! Graças a Deus!”

2 comentários sobre “IBITIPOCA OFF ROAD 2014 – A SAGA DE UM IRRESPONSÁVEL

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s