
“NAS TRILHAS DO PASSADO, AS EMOÇÕES DO FUTURO”
Com esta frase a TV Globo fazia a chamada dos pilotos para participarem desta grande aventura
I ENDURO DA INDEPENDÊNCIA – RIO DE JANEIRO/BELO HORIZONTE -1983
*matéria retirada do site: www.motosclassicas70.com.br
O Enduro era uma modalidade de competição de motocicletas, até então pouco conhecida pelos brasileiros.
O mercado de motos fora de estrada vinha crescendo muito e a Honda, de olho nesse filão, resolveu patrocinar um evento de Enduro.
Juntamente com a Rede Globo e o Trail Clube de Minas Gerais, foi criado o Enduro da Independência.
Na história do Brasil há um relato sobre uma viagem efetuada por D. Pedro I do Rio de Janeiro até Belo Horizonte, para tentar o apoio mineiro à causa da Independência, já defendida por São Paulo e Rio.
Isso foi em 1822, poucos meses antes da Independência. D. Pedro I e sua comitiva de mais 8 pessoas, cavalgou por 15 dias, e esse trajeto ficou conhecido como “Caminho Novo” e posteriormente como “Estrada Real”.
O Trail Clube de Minas, com total apoio da Honda estava pensando em criar uma prova de longa duração para difundir o Enduro nacionalmente, pois já era praticado nas trilhas de Minas Gerais. E a Rede Globo estava planejando uma comemoração especial e diferente para a Semana da Pátria.
Daí surgiu o Enduro da Independência !
Após 5 longos meses de preparação, levantamento da trilha em bases de registros históricos, muitas viagens Rio – Belo Horizonte, finalmente chega setembro !
Seriam 800 Km, percorridos em 3 dias !
440 motos, divididos em 220 duplas de pilotos, disputaram esse grande desafio, enfrentando chuva, lama, poeira, frio, e cansaço, pelas trilhas da Estrada Real !
No dia 4 de setembro, houve a largada simbólica, no Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista, onde há uma estátua de D. Pedro I. Todas as motos desfilaram, juntamente com os carros de apoio, fazendo uma grande festa !
Mas a coisa ia ficar séria mesmo no dia 5 de setembro, uma segunda feira chuvosa e fria !
As duplas começaram a largar pontualmente às 7 da manhã, partindo para a 1ª etapa, que seria até Barbacena, numa distância de 350 km.

Um mundo de motos ! A cada 30 segundos larga um participante.

Muita lama, dificuldade para navegar, muitos perdidos e depois mão embaixo para alcançar a média (o enduro é de regularidade).
O primeiro trecho cronometrado começava no vilarejo de Porto Estrela, local onde começou a viagem de D. Pedro.
De lá seguiram até Piabetá, em asfalto, e dali começava a subida até Petrópolis, em chão de paralelepípedos molhados… muitos tombos !
Depois de Petrópolis, Correias e Noguerias, também pelo asfalto.
Um trecho de terra levou o enduro até Pedro do Rio, e de lá até Secretário, também em terra batida… bem lisa !
De lá seguem até Paraibuna, passando por Paraíba do Sul. De Paraibuna até Matias Barbosa, mais asfalto ! A turma já começava a se perguntar: “cadê as trilhas, a emoção, o barro pra atolar??”
Logo depois de Matias Barbosa, viria a resposta… Começava a trilha chamada “Expurgo da Desindexaçao”! Esburacada, pedregosa, com costelas de vaca e muitas fendas, a trilha começa a dar um tempero ao Enduro !
Quem conseguiu passar bem, chegou até Caeté, Retiro e Juiz de Fora e de lá seguiu para Chapéu D´Uvas… E tiveram que enfrentar o Pastão e o Oleoduto !
O Pastão era uma encosta coberta por pastagem, que tornava a sudida muito difícil, principalmente para as pesadas XL 250 e Montesas. Quem estava de DT 180 se deu bem !
Chega o Oleoduto… são cinco morros íngremes, com um oleoduto enterrado por baixo… um sufoco !
A chuva causou uma grande erosão, e as valas e fendas eram enormes, e muita gente ficou para trás !
A seguir a caravana foi para Ewbank da Câmara, Santos Dumont, Perobão, Antonio Carlos, Sá Forte e finalmente a chegada em Barbacena !

O caminhão de patrulha especial do Exército, incumbido de percorrer as trilhas ao final do dia, recolhendo os atolados, perdidos e desaventurados, só chegou a Barbacena na fria madrugada do dia 6! Teve gente que ficou na chuva e no frio esperando o caminhão até a 1 hora da manhã!!
Em Barbacena as motos ficaram num parque fechado, onde os pilotos aproveitavam para revisar e checar as condições das máquinas para o dia seguinte. É bom lembrar que nesta primeira versão do enduro não era permitida a participação de mecânicos, só os pilotos podiam dar manutenção nas motos.
No dia 6, a segunda etapa seria até Ouro Preto. O primeiro trecho era até Padre Brito e depois seguindo até a Fazenda Pouso Real (onde D. Pedro e sua comitiva pernoitaram certa vez), passando por muitos mata-burros, o que andou entortando muita roda!!

Lama + mataburro = roda empenada
A chuva acabou fazendo com que as médias estipuladas nas planilhas se tornassem muito altas para as condições precárias das estradas e trilhas (e motos da época)… Com isso nos trechos um pouco melhores, os pilotos tinham que acelerar forte para tentar recuperar o tempo! O resultado foram alguns acidentes (nenhum grave), como o de José Triploli, que atropelou uma vaca a 80 km/h ! Tripoli nada sofreu, mas o estrago na moto foi grande !

Um dos trechos com muita lama
Chega São João Del Rey e depois Tiradentes, onde seria realizado o teste de velocidade.

O Enduro passando pela histórica Tiradentes
São 5 quilometros de subidas e descidas numa estradinha sinuosa e escorregadia, com muitas árvores, a caminho de Prado… O piloto era cronometrado na entrada e na saída do percurso… teve piloto que atingiu a média de 130 km/h !!!

A caravana do Enduro também passou pela cidade de Prado
Depois de Prado, em direção à Queluzita, Ribeiro e Conselheiro Lafaiete, as trilhas ficaram muito travadas e apertadas ! De lá seguem num trecho muito bonito até Ouro Branco, a trilha de Nicanor, porém em subida e com muitas cavas ! No topo da Nicanor havia uma estradinha de areia branca com uma vista maravilhosa da serra !
De Ouro Branco a Ouro Preto, seguiram a trilha do Garimpeiro… Atravessam um rio raso entre montes de minérios garimpados e sobem por uma trilha muito ruim até chegar no asfalto de deslocamento até Ouro Preto.
Em Ouro Preto o parque fechado foi no campo de futebol da cidade, e novamente a atividade noturna foi enorme num desmonta, monta, troca, parafusa geral !!
Amanhece o dia final, 7 de setembro, com sol forte ! A última etapa iria terminar em Belo Horizonte !

Largada em Ouro Preto, onde o sol reaparece
As trilhas iriam favorecer os pilotos mineiros, que já estão habituados a percorrê-las !
Uma trilha nova, levantada pelo TCMG, leva o Enduro de Ouro Preto até Glaura e dali até Rio Acima.
De lá, seguem para Raposos e Nova Lima, passando por trilhas como Galopeira, Lair de Baixo, Lair de Cima, Vaca Oca, Olimpo, Hemovirtus e outras ! Muita pedra solta, poeira e… muita gente andando junto, dividindo curvas, tombos, adrelalina pura!!
Está chegando ao fim… de Rio Acima, até São Sebastião das Águas Claras e finalmente Belo Horizonte !
A chegada à Belô foi no BH Shopping onde uma multidão de pessoas se misturava aos pilotos, equipes de apoio, a imprensa, televisão, um verdadeiro tumulto!

Chegada a BH com Teste de Non Stop
No final, havia a última prova… Um teste de Non-Stop, um trecho de 300 metros, repleto de obstáculos onde os pilotos não poderiam tocar os pés no chão! Apenas um piloto de cada dupla teria que participar.
E o resultado final dessa grande aventura foi a vitória da dupla mineira formada por Roberto Ferreira e Helder Rabelo, pilotando duas Yamaha DT 180, que lideraram o Enduro do começo ao fim!
Nos 32 postos de controle (PC) do percurso, a dupla perdeu 2532 pontos (253 a menos que o segundo colocado).

O piloto Beto Motorauto, que até hoje participa de provas de Enduro
Em segundo lugar chegaram os irmãos, também mineiros, Paulinho e Aureo Stradioto, também com duas DT 180.
Para a Honda, patrocinadora oficial do evento, restou o terceiro lugar, com os mineiros Patrício Calderon e Rogério Eurídes, ambos de XL 250.
Das 440 motos que partiram do Rio, menos de 300 chegaram a Belo Horizonte, entre elas uma heróica Yamaha TT 125 do carioca Jorge Antunes, que além de vencer todas as enormes dificuldades do Enduro, ainda teve que percorrer os últimos 10 quilômetros rebocando a FBM 125 de seu parceiro Antonio Nogueira, que ficou sem combustível!
São muitas as histórias e aventuras de cada um, vividas nesses 3 dias da maior e mais longa prova do motociclismo brasileiro!
Para todos, a grande vitória foi ter participado e ter conseguido chegar!
Parabéns a todos que participaram na organização, na grande idéia, na criação e principalmente aos pilotos e suas intrépidas motocicletas, que venceram todos os obstáculos e armadilhas das trilhas da “Estrada Real”!!
Matéria retirada DAQUI
Nota do site: o 1º vencedor do enduro da Independência, Helder Renan Rabelo, é de tradicional família de Montes Claros. A dupla 6ª colocada nesta prova era formada por Fernando Ferreira (Fernando Varanda, que tinha um restaurante em Montes Claros) e Hélio Alcântara Wanderley, também de Montes Claros.
Nota do site2: Como a Honda patrocinou o evento, a Yamaha montou uma grande equipe para tentar as primeiras colocações. Inscreveu inclusive vários mecânicos para dar manutenção nas suas motos (a manutenção das motos só poderia ser feita por pilotos participantes da prova), o que gerou protestos de outros pilotos. A tática deu certo e a Yamaha conquistou as duas primeiras colocações no evento bancado pela Honda.
Nota do site3: Das 10 primeiras duplas do Enduro, apenas 2 do Rio (7ª e 10ª) e o resto tudo de Minas Gerais, mostrando a tradição do estado no esporte.